Esquemas táticos (parte 3/3)

A parte final da série sobre esquemas táticos tem foco no futebol moderno, principalmente a partir de 2000, quando passou a haver uma supervalorização da defesa, os meias habilidosos começaram a ficar escassos e começaram a surgir os polivantes e superpoderosos jogadores.

4-3-3

O esquema que passou por gerações é utilizado até hoje. Sendo altamente ofensivo, depende que seu meio campo seja habilidoso e confiável o suficiente para colocar 3 homens no ataque. Deve ser confiável pois, tendo os lados abertos, os jogadores do meio devem deslocar-se conforme o jogo corra para um lado ou para outro, porém sem deixar exposto o meio-de-campo. O futebol moderno coloca 3 volantes com alguma responsabilidade armadora no meio, deixando 1 centroavante e 2 atacantes mais abertos chamando mais o jogo. Este estilo, porém, será evoluído para muitos outros.

Na figura de baixo, do mitológico time das décadas de 1960/70, com Djalma Santos, Nilson Santos, Zito, Didi, Zagallo, Garrincha, Pelé, Vavá… E na de cima, uma formação do Barcelona com o também mitológico Cruyff.

4-2-3-1

O Corinthians de 2009 foi campeão Paulista e da Copa do Brasil jogando com o que tinha: Mano Menezes, que, no time de Parque São Jorge, demonstrou um conhecimento tático muito apurado e armou sua equipe. Reforçou a defesa com Cristian e Túlio, deixou Douglas na armação das jogadas, isolou Souza (e, futuramente, Ronaldo) na área e colocou Jorge Henrique e Elias (e futuramente Dentinho) para correrem pelas laterais. Com dois atacantes velocistas e dribladores (JH e Dentinho), a equipe de Mano abria a defesa adversária deixando o caminho livre para Ronaldo arrematar e Douglas tocar em profundidade para um dos dois ou até mesmo chegar ao ataque. Cristian (e, futuramente, Elias) jogava como o volante que chegava à frente e, quando era atacado, o time defendia com pelo menos 8.

4-3-2-1

O Milan de 2008/2009 montou uma das melhores equipes da década. Todos seus meio-campistas eram muito habilidosos e a equipe como um todo muito rápida. Fixando Inzaghi na frente e Seedorf no meio, deu liberdade para Ronaldinho tomar conta do espaço entre o meio-de-campo e o ataque. Pirlo, Ambrosini e Flamini davam a segurança que o meio-campo precisava com os avanços de Jankulovski e Zambrotta. Seedorf ajudava a compor o meio-campo e dar aquele toque de experiência.

4-3-1-2

A laranja mecânica de Cruyff armou um esquema totalmente baseado no mito holandês. Primeiramente, protegeu a zaga com 3 volantes. Depois, colocou o jogador no meio com liberdade para ele ser ele mesmo: o amontoado de setas não é supercarregamento. Ele tinha liberdade para fazer o que quisesse: marcasse, defendesse, driblasse, lançasse… e, principalmente, atacasse em velocidade. Para isso, os 2 atacantes dos lados puxavam a marcação e o jogo para que Cruyff conseguisse aparece pelo centro. As setas indicativas de movimentação dos 2 atacantes mostram que eles fechavam no meio, assim o time tinha sempre um ataque com pelo menos 3.

4-2-1-3

O time que encantou o Brasil em 2010 – o Santos – era altamente ofensivo e leve. Não deixar a molecada livre pra criar e correr seria um desperdício.

O 4 era Pará, Edu Dracena, Durval e Sandro. O 2 era Arouca e Wesley. o 1 Paulo Henrique Ganso. E no ataque, os 3: Robinho, Neymar e André.

4-1-3-2

Uma das recentes formações do Barcelona trazia esta formação. Tendo Busquets quase de líbero, Xavi e Keita (somente) cuidavam do meio e Iniesta, Villa e Messi, 3 atacantes, garantiam a maioria dos gols da equipe. É isso mesmo que você está pensando: a equipe jogava sem centroavante. Mais uma formação tática de muita visão do técnico, que armou a equipe favorecendo as características individuais.

3-4-3

Reforçando o que eu disse no esquema anterior, o [quase o] mesmo Barcelona mudou um pouco o esquema tático: Busquets finalmente virou zagueiro e Daniel Alves e Abidal foram liberados para atuar de alas. Iniesta foi recuado para compor o meio-campo com Xavi, mas o time continuou jogando sem centroavante: Pedro, Messi e Villa atacavam em bando e muita velocidade. Uma equipe coletiva e individualmente muito rápida e muito inteligente.

3-5-2 A

Você lembra dessa formação? Acha muito retranqueira? Ela foi utilizada por Felipão na seleção brasileira de 2002, campeã do mundo: Marcos; Edmílson, Roque Jr e Lúcio; Cafu, Gilberto Silva, Kleberson, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos; Ronaldo e Rivaldo.

A grande sacada de Felipão foi entender que Cafu e Roberto Carlos são alas, e não laterais. Assim, preferiu dar liberdade para que eles avançassem pelos lados do campo e protegeu a defesa com dois volantes, a bem da verdade, lentos, porém muito marcadores. Se, por um lado, a defesa ficava aberta quando os alas subiam e a equipe recebia um contragolpe pelos lados e os zagueiros precisavam cair para as laterais para marcar, os volantes garantiam a defesa do miolo. Tendo essa velocidade dos alas e bons cruzamentos pelos lados garantidos, o meio ficou tranquilo para atuar: Ronaldinho e Rivaldo abriam cada um para um lado para servir Ronaldo sempre presente na área. Felipão conseguiu fazer com que os jogadores ocupassem o campo inteiro com as movimentações.

3-5-2 B

Quase a mesma coisa que o 3-5-2 A, esta variação permite uma postura mais ofensiva. Deixando os alas com maior preocupação defensiva, sacrifica-se 1 volante e dá mais liberdade de criação ao meio. Foi o que aconteceu na mesma seleção de 2002 quando Kleberson deu lugar a Kaká e Roberto Carlos a Júnior.

4-5-1

Com a volta dos laterais e a falta de atacantes velocistas, o Brasil de Dunga preferiu superpovoar o meio-campo, com uma preocupação até exagerada em se defender, e atacar com poucos jogadores.

A defesa pouco mudou: dois laterais com mais preocupação defensiva do que ofensiva e dois zagueiros no miolo. Os volantes, Gilberto Silva e Anderson, tinham funções diferentes: GS, agora mais experiente, era o “maestro” do meio e Anderson, mais leve e rápido, é o chamado volante moderno, o que chega ao ataque. Elano compunha o meio campo e chegava ao ataque quando tinha espaço, mas sua posição era no meio. Luis Fabiano, isolado no ataque, ainda vinha buscar as jogadas no meio, mesmo com o avanço de Kaká, que também estava preso ao meio-campo, e Robinho, o único a fazer uma correria pelos lados do campo.

3-6-1

O Fluminense campeão Brasileiro de 2010 utilizou uma tática pouco comum. Tendo em Washington a grande esperança de gols e em Conca, o argentino baixinho, rápido, corredor, inteligente e bom de bola, o cérebro do time, a equipe foi montade da frente pra trás.

Washington ficou isolado na frente. Conca e Marquinho, rápidos e leves, chamavam a responsabilidade da criação e eram os caras da velocidade no meio-campo, servindo Washington. Mais atrás deles, 4 meio campistas que dividiam as responsabilidades de compor o meio-campo e fazer as vezes dos volantes. Os laterais empurrados para o meio (e, ainda assim, não eram alas), fechavam os lados e Diogo e Diguinho terminavam de congestionar o meio-campo. Para os zagueiros, nem tão bons assim, sobrava pouca coisa: as bolas que sobravam já vinham mastigadas ou com os atacantes capengando. Porém, Muricy Ramalho, técnico daquele time, um exímio “arrumador” de defesa, não a deixaria exposta e, por isso, colocou 3 zagueiros, que se revezavam como líbero, caindo para os lados ou acompanhando o centroavante.

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14 responses to “Esquemas táticos (parte 3/3)

  1. Pingback: Esquemas táticos (parte 2/3) |·

  2. digam o que quiserem opinem,porem o time que tem um meia abilidoso e inteligente tem meio caminho andado,jogando bem faz a diferença.

  3. No atual futebol vc tem que jogar conforme as peças que vc tem,mas uma boa defesa é esencial mesmo assim a coletividade tem que existir e todos tem o dever de marcar e correr,sabemos que o gol é o mais importante pois é quem da a vitoria.

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  6. Mais um belo post, Arce. Encerrou a série dos esquemas táticos em grande estilo, embora o assunto nunca se encerre.

    Você acerta demais quando diz que o esquema tem que se adequar ao time e não o contrário. Quando as peças se encaixam o padrão aparece.

    O 4-3-1-2 da Laranja Mecânica era muito ofensivo por causa do Cruyff, a alma do esquema. O Ceará jogou a Série A do ano passado no mesmíssimo esquema, porém extremamente defensivo, uma vez que os melhores jogadores da equipe era o trio de volantes. Havia também um jogador do elenco bem peculiar, nem tão volante e nem tão meia – o Geraldo, uma fusão entre as duas posições. O time quase não foi agredido durante todo o campeonato, com uma defesa bastante sólida, não esteve na zona de rebaixamento em nenhuma rodada, no entanto, com um ataque sofrido.

    Arce, o Porto joga no 3-4-3 ou no 4-3-3?

    • Obrigado pelos elogios, Francisco.
      No caso do Ceará, por ser considerada uma equipe “pequena”, é natural que entre com uma certa retranca. Um trio de volantes bem treinado pode ser bem mais do que defesa: pode fazer as vezes dos meias armadores tão raros hoje em dia (haja vista o que fazia Gérson na seleção de 70).
      Sobre o Porto, não sei dizer, pois não acompanho o futebol internacional. Mas posso analisar e te responder depois.
      Obrigado pela participação.

  7. Naum tem jeito !
    Os Melhores Times Do Mundo ( Real and Barça ), Jogam no 4-1-1-3-1 !
    É, pode parecer esquisito, mas é um 4-2-3-1 Com um volante-meia estilo Elias e Hernanes !
    O Barça por exemplo : Valdés, Dani Alves, Piqué, Puyol e Abidal; Busquets e Xavi(o volante-meia); Iniesta, Villa, Pedro; Messi (embora naum seja Centro-Avante)!
    O Real : Casillas, Sergio Ramos, R. Carvalho, Pepe e Marcelo; Khedira e Xabi Alonso(o volante-meia); Ozil, C.Ronaldo, Di María; Benzema(Adebayor) !

    Poucas diferenças existem nesses dois esquemas ! Entre eles: O lateral que sobe no Real é o Marcelo(Esquerda) e no Barça: Dani Alves (Direita) ! Outra é que o Real joga com um homem de área (Benzema ou Adebayor) e o Barça naum !

    • Bem analisado, Gabriel.
      Porém é importante ter em mente que não existe um esquema perfeito. O esquema tem que se adequar ao time e não o contrário.
      Real e Barça realmente são os melhores do mundo, só que os esquemas foram adotados pensando nas peças que os compõem. Quando uma substituição é feita, se o jogador que entra não tem as mesmas características de quem sai, o esquema é alterado.

  8. A força do futebol dito moderno esta exatamente nesta tentativa de atrair o meio-campo para ser o principal campo de batalha do campo. É lá que tudo acontece e por onde um time se orienta… esquemas que inflacionam esta parte do campo ganham projeção.

    Pelo Post. Adorei as figuras

    • Não existem mais posições, no futebol. Existem jogadores e só. Se mostrar alguma habilidade, é dinheiro certo. Se não, vai pra algum time menor.

  9. Espero que o “arrumador” Muricy consiga fazer o mesmo com a defesa santista, mas não as custas de um 3-6-1

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