Estatísticas são só estatísticas

1959…
Bossa Nova, Brasilia quase pronta, o Brasil começa a ter um campeonato nacional, Garrincha ainda jogava muito, a CBD tinha sido campeã em 1958, a Hebe ainda era viva, o Niemeyer já tinha passados dos 50.

Pelé, que ainda não era rei mas já era genial, fez 75 gols oficiais naquele ano, em um tempo com muito menos jogos oficiais e milhões de excursões pelo Mundo, graças à Copa do Mundo do ano anterior, que deu fama e ares mágicos ao Brasil. Foram 75 gols, a maioria deles sem transmissão pela TV.

2012…
Gangnam style, em Brasilia julgam casos de corrupção, Ronaldo tenta emagrecer à cores na TV aberta, o Fluminense está prestes a ser campeão de novo, Niemeyer ainda está vivo e Messi é o melhor jogador do Mundo.

Ele fez, em jogos oficiais, 71 gols. E ainda estamos em Outubro. Champions League, La Liga, Supercopa, Taça do Rei, eliminatórias da Copa e amistosos da Seleção. São muitos jogos oficiais. Com eles e sua genialidade absoluta, Messi está prestes a bater um recorde (entre milhares) de Pelé. Na média de gols, o argentino já é atualmente melhor, tem 1,28 gols por jogo enquanto o Rei teve 1,24.

“Estatísticas são só estatísticas”, disse o craque murchando os jornalistas.
Nos acostumamos, ou melhor, nos acostumaram a fazer tudo virar uma competição. Todos temos que ser os melhores em tudo, não somos mais filhos, somos produtos que nossos pais de classe média comparam como Pokémons “Meu filho passou em 36 vestibulares!”; “O meu passou em 7, mas um deles foi Medicina em Harvard!”. Jornalistas e empresários, estimulados por patrocinadores, fazem isso com jogadores de futebol. A intenção é comparar todos com todos, eleger o melhor jogador em campo, comparar jogadores de hoje com jogadores de ontem e criar mitos. Mitos, heróis, vendem mais barbeadores, mais shampoos, mais tênis. É claro que no bar nós comparamos Neymar com Garrincha, Messi com Pelé. Mas nós somos torcedores e geralmente estamos bêbados. A imprensa esportiva fazer isso é algo muito mais grave.

Jogadores normais entram na pilha. O caricato Túlio Maravilha esta ai correndo atrás dos fajutos 1.000 gols. Messi é diferente. Estatísticas são só estatísticas. “Parem de me comparar com Pelé”, deve ter pensado. Ele, como bom esportista, sabe que na época do Rei as chuteiras era bizarramente pesadas e ruins, os gramados eram pastos, a bola era uma pedra, o jogo era mais lento, a preparação física, a fisioterapia, a nutrição, enfim, ainda engatinhavam. Era tudo completamente diferente de hoje em dia. Aquele futebol e esse futebol são praticamente dois esportes diferentes. Sem contar os muitos jogos de excursão, quando um time saia pelo Mundo cobrando pra jogar amistosos. Messi sabe disso. Não existe comparação fora dos números. Podemos comparar 71 com 75. Nunca poderemos comparar Messi com Pelé.

E não porque nunca haverá ninguém igual a Pelé, ou a Garrincha, ou a Maradona, ou a Túlio Maravilha. Mas porque essas comparações não tem base, são impensáveis, não existem termos comuns a serem comparados em momentos tão diferentes do esporte.

É como comparar o futebol de botão com o FIFA2013 pra X-Box.

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