Seleção Brasileira (1982)

Que responsabilidade! Escrever sobre essa Seleção marcada pelo futebol arte (e também pela derrota) é muito complicado…tenho que ter alguns cuidados. Ainda mais sob os olhares de vários flamenguistas que vigiarão meus comentários sobre Leandro, Júnior e Zico; os colorados espertos ao ler sobre Falcão; os corinthianos esperando para ver o que será dito do Sócrates; até pra falar do Chulapa eu vou correr riscos. E o que quer que eu escreva não vai contemplar todo o futebol e arte dessa Seleção…

AQUELA Seleção num jogo, se não me engano, contra a União Soviética.

Rapazes estilosos em pé: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Falcão, Luizinho e Júnior.

Os meninos veneno agachados: Nocaute Jack (o massagista), Sócrates, Toninho Cerezzo, Serginho Chulapa, Zico e Éder.

Antes de mais nada, vamos analisar uma coisa: O Falcão já tem entrada, o Júnior (com black-power e longe do atual bigodinho) olha para a bunda de Éder, o Sócrates já mostra seu melhor estilo FFLCH, Toninho Cerezo já com cara de sem vergonha, Serginho Chulapa é o mesmo só que mais novo, Zico mostra ai que o apelido Galinho de Quintino não é a toa. O técnico Telê Santana infelizmente não aparece na fotografia. E nõs brasileiros também pudemos contar com o massagista de melhor nome da história: Nocaute Jack!

Ao que interessa…

Vocês tem noção do quanto esse time é fantástico? Temos ai os campeões da Libertadores e Mundial Interclubes (do ano anterior , 81) Leandro, Júnior e Zico, entrosados e habilidosos; o experiente Valdir Peres defendia a meta podendo contar com o excelente Oscar, zagueiro do São Paulo; Falcão havia participado daquele título invicto histórico do Internacional em 79 e na Copa já era Rei de Roma; nada menos que o Doutor Sócrates recebia a faixa de capitão; Serginho Chulapa é o mais contestando, mas se firmou depois de mostrar serviço no Mundialito do Uruguai; sem contar o eficiente e consagrado Éder. O banco tinha boas peças: Roberto Dinamite, Pedrinho (do Palmeiras/Vasco), Batista (do Internacional), Dirceu, o goleiro Carlos,  Edevaldo (aquele do Fluminense) que chegou a jogar contra a Argentina. O elenco como um todo era sensacional.

Sarriá, 5 de Julho

Era só o que dizia a manchete de um jornal no dia seguinte à eliminação. Ilustrada por uma foto: um garoto vestido com a camisa Canarinho tentando mas não conseguindo segurar o choro, aquela primeira página já dizia tudo. Sarriá era o lugar, 5 de Julho o dia, nos quais o sonho da lendária Seleção de 82 acabou. Eliminados pela Itália, mais precisamente pelos três gols até hoje inacreditáveis de Paolo Rossi. É, ele é o nosso Baggio ao contrário! Para os que acreditam, a demolição do estádio Sarriá em 1997 pode significar um banho na alma.

Jornal da Tarde 5 de Julho 1982
Um comentário rápido: já li que a manchete dizia “Barcelona”, a cidade, e também “Sarriá”, o estádio. Não sei qual das duas é a verdadeira porque só achei a foto, não achei a capa.

Falcão é perfeito ao dizer “Não foi o Brasil que perdeu. Foi o Futebol. Ganhar aquele título poderia ter significado uma mudança na forma de se jogar dali pra frente”.

Vamos descobrir juntos o porquê:

Essa Seleção começa – falando em convocações – em 1979 quando o então técnico Cláudio Coutinho convoca algumas novidades: Falcão (injustamente deixado de fora em 78), Júnior, Éder, Sócrates…o Mestre Telê Santana chegou em 1980 depois de Coutinho ter perdido a Copa América. Já temos então vários dos pilares: o ataque de Éder, Sócrates que até hoje é símbolo daquela geração, Júnior representando os flamenguistas e o Telê.

Da um abraço aqui, Zico! Chulapa todo meninão no fundo!

Zico fala que com Telê o time fazia coletivos toda hora, toda hora mesmo. Isso pode ser uma explicação para o entrosamento monstruoso que eles tinham. O único que demorou mais para se entrosar, apesar de já ter começado a ser convocado em 79, foi Falcão. Os times europeus não eram obrigados a liberar seus jogadores e Falcão, que jogava no Roma, não disputou as eliminatórias e nem alguns dos amistosos de 82. O Mestre foi chamando Cerezo, Batista, Zico, Paulo Isidoro, Reinaldo, Serginho…a Seleção foi se ajustando aos poucos.

O primeiro grande teste foi o Mundialito do Uruguai. A base foi Carlos no gol; Edevaldo, Oscar, Luizinho e Júnior na defesa; Cerezo, Batista e Renato/Paulo Isidoro no meio; Serginho/Tita, Sócrates e Zé Sérgio no ataque. Mesmo sem Zico e Falcão para mostrarem como se joga futebol no meio campo, o time jogou muito bem. Carlos sofreu uma fratura e Valdir Peres, convocado pela primeira vez, acabou firmando-se como titular. Naquele campeonato o Brasil empatou com a Argentina, goleou a Alemanha Ocidental por 4 a 1 mas perdeu para o Uruguai na decisão (questão de educação com os anfitriões, né).

O ataque de Telê era meio mutante, demorou para ter titulares definidos. Depois das eliminatórias, do Mundialito e dos amistosos ficamos com Chulapa na frente e Éder chegando em diagonal, Dinamite ficou no banco. O time era bastante ofensivo, só mesmo Oscar não se arriscava (e ainda assim ia para a área em jogadas de bola parada), mas mesmo assim era organizado e sabia se defender – roubava muitas bolas (como veremos no vídeo).  Júnior, lateral-esquerdo muito presente no ataque, considera aquele time muito parecido com o do Flamengo daquela época. O ataque pela direita e esquerda sempre compunham a marcação. Era quase um 4-5-1 quando a equipe não tinha a bola, sendo 4-3-3 quando tinha.

Os últimos amistosos no Brasil asseguraram Leandro, lateral direito, e Roberto Dinamite no elenco. Falcão entrou a tempo de jogar no amistoso 1 x 1 contra a Suiça e no 7 a 0 contra a Irlanda. Foi ai que nasceu o famoso, famigerado e lendário quadrado Cerezo, Falcão, Zico, Sócrates.

Vamos ver a bagaça funcionando:

Atenção para uma parte do vídeo que diz: “Apesar de eternamente sem troféu, o time de Telê conquistou duradoura fama marcando 50 gols. Cada um deles requintado, em conjunto. Mais bonitos que a própria taça”

Pra quem viu o vídeo e pra quem não viu: notem como a maioria dos gols começa em roubadas de bola e como todos (mesmo os mais individuais) envolvem um bom trabalho coletivo com a bola. Roubar a bola do adversário e transformar isso em gol passa por um time que se posiciona bem, ocupa os espaços, toca com precisão e, quando tem a jogada ‘estragada’, sabe refazer o ataque abrindo novas opções. Aquela seleção tinha isso tudo.

Escalação

Valdir Peres entrou depois, era experiente e seguro, mas tomava alguns gols estranhos. Júnior era um lateral esquerdo destro, habilidoso, ofensivo, sabia compor a marcação mas também fazia gols a dar com rodo. Falcão estava na boca da área toda hora

Falcão e Leandro

fazendo gols e dando passes, era um verdadeiro gênio; falando em passes e gols temos que falar de Sócrates, craque que só ele, peladeiro, fumava e bebia bastante mas nada que atrapalhasse seu futebol (e se atrapalhou não consigo imaginar como ele seria sem a boemia), inteligência como maior característica, chute forte e maravilhosa criação como ferramentas. Zico é um dos maiores camisa 10 que a Seleção já teve: driblava com facilidade, tinha visão de jogo para dar passes e se posicionar, precisão e oportunismo para fazer gols, raro batedor de falta, um primor! Fora do comum, magnífico camisa 10. Éder cumpria sua função de fazer gols e volta e meia enfeitava – como naquela cobertura maravilhosa no vídeo que eu passei ali em cima. Entrava em diagonal e tinha um chute muito forte. Oscar e Luizinho seguravam atrás, o primeiro cabeceava bem e desarmava como ninguém, quase não saia da defesa, o segundo era apenas regular, pouco badalado, muitas vezes se arriscava no ataque. Leandro ia bem para o ataque, era veloz e criava boas jogadas. Cerezo era um volante marcador, sabia o que fazer, infelizmente é o mais crucificado – principalmente por causa do jogo contra a Itália. Finalizando, Serginho Chulapa é muito contestado, por outro lado era brigador, não jogou mal e ainda fez dois gols (um deles, de cabeça, esta no vídeo).

Fala, doutor!

O artigo não é sobre o técnico, não é sobre a CBF, não é também sobre a Copa de 1982…é pura e simplesmente sobre o time que mandamos para a Espanha naquele ano. Por isso, acabo aqui o artigo sobre aquela sensacional, fantástica, brilhante e artística Seleção. A conclusão que a gente chega é que Falcão realmente tinha razão, caso eles ganhassem aquela Copa, o Futebol agradeceria. Mas nem tudo é injustiça…a Seleção de 82 é muito mais querida que a de 94, campeã…Muita gente prefere o título, outros preferem o futebol. Quando não da pra ter os dois, qual você prefere?

Brasil 4 x 0 Nova Zelandia

Brasil 3 x 1 Argentina (Oitavas)

Brasil 2 x 3 Itália (Quartas)

75 responses to “Seleção Brasileira (1982)

  1. Adaci, Roberto Dinamite não resolveria os jogos sozinho.Sem os pontas , Roberto ficaria perdido no ataque tanto quanto Serginho, pois era também rompedor.E Waldir jogou muito bem em todos os jogos preparratórios e contra a Argentina e não teve culpa nos gols da Itália.A maioria tem a mania de analisar individualmente um esporte que é coletivo.O meio campo não marcava, Telê preferia o ataque,mas não armou um bom ataque,até por azar porque Careca machucou-se.

  2. A Seleção não era ruim atrás, mas não tinha um volante marcador e a defesa ficava no mano a mano muitas vezes. Contra a Argentina aconteceu isso. Como a Itália tinha um matador, desta vez levamos a pior.E também não tínhamos pontas verdadeiros para um atacante rompedor.Agora, se algúem vai no estádio pra ver retranca, mau futebol com vitória, mais vale um gosto. Ter encantado nada tem a ver com a derrota, até porque tivemos seleções que não encantaram e também perderam.

  3. Essa seleção era ótima, mas tínhamos um técnico teimoso, pois todo mundo via que Roberto Dinamite estava voando e Serginho Chulapa era um cabeça de bagre. Que Paulo Sérgio era muito melhor que Valdir Peres. Que o quadrado mágico só seria mágico se o melhor jogador da copa de 78, tri campeão brasileiro no Internacional junto com Falcão estivesse como titular. Assim teríamos Batista, Falcão, Sócrates e Zico (verdadeiro quadrado mágico). Se o Excelente Edinho jogasse no lugar do apagado e amarelado Luizinho. Essa seleção era ótima, mas, para ser maravilhosa, faltou alguma coisa.

  4. Prezado Ricardo Leon Haddad, se o esporte coletivo fosse feito apenas de vitórias em campeonatos, nada mais teria a oferecer ao mundo senão os resultados.

  5. Essa seleção só foi melhor q a de 1990, foi pior q todo o resto. Pois perdeu. Abs

    • Foi esse apreço pelo pragmatismo, essa ênfase no resultado que acabou com a magia do nosso futebol. Essa seleção não levou o título, mas o seu legado inspirou craques de todo o mundo.

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